“Quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de idéias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra.”

Machado de Assis, Quincas Borba

Este projeto pretende abordar a produção e o consumo de objetos de uso cotidiano do ponto de vista de nossas relações afetivas — através da memória e da narrativa literária — com esses mesmos objetos. Tem como objetivo ser uma pequena reflexão sobre nossos fetiches com relação a mercadoria e as formas com que podem ser manipulados em nosso sistema de produção e consumo atual.

Participação de Adriano, Alessandra, Anderson, Anna Karina, Clarissa, Daniel, Debora, Katia, Laura, Marco, Mariana, Kiko, Raphael, Reinaldo, Silvia, Suiane.

Projeto final de pós-graduação, Centro Universitário Maria Antônia, USP, setembro de 2009.

Andrea Oliveira

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Pintura dos objetos: Anderson, Focos Cenografia

Uso uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo.
Corre bem, corre suave. Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra. Por assim dizer provoca meus sentimentos e pensamentos. E ajuda-me como uma pessoa. E não me sinto mecanizada por usar máquina. Inclusive parece (?) captar sutilezas. Além de que através dela, sai logo impresso o que escrevo, o que me torna mais objetiva. O ruído baixo do seu teclado acompanha discretamente a solidão de quem escreve. Eu gostaria de dar um presente à minha máquina. mas o que se pode dar a uma coisa que modestamente se mantém como coisa, sem a pretensão de se tornar humana? Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são ‘muito humanas’ está me cansando. Em geral esse ‘humano’ está querendo dizer ‘bonzinho’, ‘afável’, senão ‘meloso’. E é isso tudo o que a máquina não tem. Sequer vontade de se tornar um robô sinto nela. Mantêm-se na sua função, e satisfeita. O que me dá também satisfação.

Gratidão à máquina, Clarice Lispector

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Intervenção de Kiko

A cômoda foi comprada em segredo, e introduzida ocultamente. Que dia de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira nova! Passava a mão, com a tremura de uma carícia, sobre o polimento luzidio!… Forrou-lhe as gavetas de papel de seda; e começava a completar-se!

O Primo basílio, Eça de Queirós

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DSC_0109Intervenção de Andrea

II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

Uma didática da invenção, Manoel de Barros

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Intervenção de Laura

Era uma peça vasta, clara graças ao sol e à pintura amarela, com vinte leitos,
todos ocupados. Linda morria acompanhada — acompanhada e com todo o conforto
moderno. O ar era constantemente animado por alegres melodias sintéticas. Ao pé de cada cama, diante do ocupante moribundo, havia um aparelho de televisão. Deixava-se funcionar a televisão, como uma torneira aberta, da manhã à noite. A cada quarto de hora, o perfume dominante na sala era automaticamente mudado.

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

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Intervenção de Marco

—Oh! Está chovendo?
Não foi propriamente por causa da chuva, mas o garoto abrira o guarda-chuva para disfarçar sua timidez ao passar em frente à lojinha onde a garota estava sentada.
No entanto, sem dizer nada, ele estendeu o guarda-chuva para cobrí-la. Ela apenas deixou um ombro ser coberto pelo guarda-chuva. Molhado, o garoto não conseguia se aproximar e convidá-la a se proteger mais. Ela queria segurar com ele o cabo e, no entanto, o tempo todo parecia estar prestes a fugir do guarda-chuva.
Os dois entaram no estúdio fotográfico. O pai do garoto, um funcionário do governo, fora transferido para uma terra distante. Era a fotografia de despedida.

O guarda-chuva, Yasunari Kawabata

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Intervenção de Suiane

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia no aparador.

Cerâmica, Carlos Drummond de Andrade

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Intervenção de Reinaldo